Prof. Dr. Sebastião Gusmão: CRISE DO CONHECIMENTO

Jun 21, 2021 Escrito por 
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Todos os conceitos fundamentais de nossa cultura estão contemplados na mitologia, processo primordial de compreensão da realidade para dar sentido à existência humana; é a pré-história da filosofia, de onde esta se originou. Prometeu, um titã da mitologia grega, deu o fogo e o conhecimento à humanidade, colocando o homem acima dos demais animais e próximo dos deuses. Por este crime, Zeus o condenou a ter o fígado eternamente devorado por uma águia. Na narrativa judaico-cristã, Eva desobedece a Deus e opta pelo fruto da árvore do conhecimento. Como Prometeu, Eva e suas filhas pagam caro pela escolha (“E terás teus filhos com dor”), mas o prêmio compensa: filhos destinados ao conhecimento e à liberdade, e não servos passivos e ignorantes em um paraíso. Conhecimento é poder e liberta, mas tem alto preço. Arrancá-lo dos deuses custou o fígado de Prometeu e as dores de Eva.

A natureza nos deu apenas a possibilidade do conhecimento e da liberdade. E a história da humanidade é a história da luta contínua e árdua para aquisição destes dons naturais. O conhecimento, a cultura, iniciou-se com nossos ancestrais há dois e meio milhões de anos (homo habilis), cresceu lentamente com outras espécies do género homo, e intensificou-se vertiginosamente com nossa espécie (homo sapiens, que surgiu aproximadamente há 250 mil anos). Tales de Mileto, há 2.600 anos, procurou explicar o mundo em bases naturais, abandonando o mito e iniciando a filosofia grega, que gerou as várias ciências. No século 17, Descartes e Bacon apostam tudo na razão e no empirismo, dando início à vertiginosa escalada do conhecimento em direção ao atual mundo da informação e do conhecimento.

Hoje, com a inteligência artificial, a ciência ambiciona dominar o conhecimento do homem e do universo. A escalada para decifrar o universo iniciou-se com os gregos, que postularam a esfericidade da terra, e Eratóstenes (século 3 a.C) mediu sua circunferência com surpreendente precisão. Mas, a (pseudo)filosofia, que guia nossa cúpula governante, tornou a terra plaina e está nos levando à borda do “disco terrestre” para nos jogar no abismo da ignorância.

A informação é a base do conhecimento. O surgimento, nas últimas décadas, das redes de computadores criaram a sociedade da informação e do conhecimento. Tudo está na Internet, na ponta dos dedos. Entretanto, o excesso infernal de fake news (falsa informação), criam o fake knowledge (falso conhecimento), que dá origem à pandemia da ignorância. Esta contamina o rebanho de analfabetos funcionais, privados da imunidade propiciada pela razão crítica e pela reflexão. Nunca o conhecimento foi tão acessível e ao mesmo tempo tão duvidoso. O desafio é selecionar o conhecimento verdadeiro, filtrado pela razão e pela evidência.

Nossa crise do conhecimento torna-se mais evidente na atual pandemia. Para vencê-la é necessário convergência entre ciência e política, coordenada por uma liderança política efetiva que realize a mobilização das capacidades existentes. O nosso fracasso advém desta falta de convergência, levando à falsificação da gravidade da pandemia e a medidas sem evidência científica. O engajamento da comunidade científica é anulado pelo caos politico da desarticulação entre os vários níveis da administração pública, agravada por um Ministério da Saúde à deriva.

Para gerar conhecimento, o que possibilita uma nação desenvolvida e livre (democrática), devemos priorizar a educação, o que não tem sido o caso desde o Brasil colonial. Apesar dos avanços após a República, essa deficiência ainda persiste no Brasil do século 21, onde nossas políticas públicas de educação inclusiva e de qualidade são caracterizadas por avanços e recuos, com frequência ao sabor de lideranças escolhidas

mais por conveniência política do que por meritocracia. Não por acaso, foi na cidade protegida pela deusa da sabedoria (Atenas) que nasceu a democracia. Mas parece que a sábia Atenas não olha para nosso Ministério da Educação, paralisado pela pandemia da ignorância de ministros “terraplanista” ou falso doutor. O paradoxo do desconhecimento na Era do Conhecimento nos retrocede ao passado, nos distancia das nações desenvolvidas, e nos condena ao subdesenvolvimento e aos riscos do totalitarismo.

Somos destinados a conhecer ou perecer. Suprimido o conhecimento, a cultura, somos apenas frágeis animais, indefesos frente aos demais predadores da natureza. Várias nações apostam tudo no conhecimento, e na liberdade que o possibilita. Não é o nosso caso, acometidos atualmente pela maldição da ignorância. Precisamos ultrapassar esta maldição para continuarmos merecendo a denominação de homem sábio (homo sapiens) e sermos dignos filhos de Eva e Prometeu.

Redação

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